A coluna Política e Memória desta semana resgata o legado de Waldir Pires e celebra o centenário de um dos maiores políticos brasileiros de todos os tempos.
Waldir Pires ganhou notoriedade no final da década de 1940, ao participar da campanha ‘O Petróleo é Nosso’, que teve como principal resultado a criação da Petrobras, durante o governo Getúlio Vargas, em 1953.
“Era uma batalha nacionalista [...] O petróleo é nosso é uma dessas batalhas que tomou conta de nossa juventude durante muitos anos”, relatou Waldir Pires em um documentário produzido pela TV Câmara.
O político foi eleito eleito deputado federal em 1958, já durante o governo Juscelino Kubitschek, pelo PSD, mesmo partido do então presidente, participando também da transição da sede administrativa do país do Rio de Janeiro para Brasília, no início da década de 1960.
Waldir Pires tenta chegar ao governo da Bahia e perde
Waldir Pires tentou a candidatura ao governo da Bahia em 1962, também pelo PSD. Seu adversário foi Lomanto Júnior, da União Democrática Nacional (UDN), ex-prefeito de Jequié.
O candidato do PSD enfrentou a rejeição de setores conservadores por um suposto apoio de nomes ligados ao comunismo. Waldir também teve como principal desafio a falta de penetração no interior baiano, ponto no qual Lomanto levou vantagem.
Waldir venceu em todas as zonas de Salvador, mas o voto do interior fez a diferença para seu adversário, que acabou sendo eleito.
“Ganhei a eleição em todas as regiões de Salvador, mas não era suficiente para superar os votos do interior, que se concentrou na candidatura de uma pessoa muito interessante, que foi o meu competidor, o Lomanto Júnior”, detalhou Waldir.
Aliado de João Goulart e vítima do golpe de 1964
Sem mandato eletivo, Waldir Pires assumiu a função de consultor-geral do presidente João Goulart (PTB), protagonista no processo eleitoral que culminou no golpe militar de 1964.
O triunfo do golpe fez com que Waldir Pires, ao lado do então ministro-chefe da Casa Civil, Darcy Ribeiro, deixasse a Esplanada dos Ministérios no ‘apagar das luzes’.
Waldir vai para o exílio logo em seguida, permanecendo fora do país até 1970. Sua passagem pelo exterior inclui a estadia na França, onde lecionou nas universidades de Dijon e Paris.
Apesar do retorno ao Brasil, Waldir Pires se manteve distante do ambiente político ‘legal’, fruto da promulgação do Ato Institucional N 5 (AI-5), do qual foi um dos atingidos.
Waldir é anistiado, vira ministro e governa a Bahia
Waldir Pires foi um dos beneficiados com a Lei da Anistia, em 1979. Nos anos seguintes, esteve no processo que resultou na formação do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), oriundo do MDB, legenda de oposição ao regime militar. Em seguida, em 1982, tentou chegar ao Senado, sendo derrotado por Luís Viana Filho (PDS), senador reeleito.
Waldir Pires foi uma das peças de maior importância no processo de construção da candidatura de Tancredo Neves, pelo PMDB, à presidência da República, em uma eleição indireta no Congresso Nacional contra Paulo Maluf (PDS), em 1985.
Tancredo foi eleito e deu a Waldir Pires a promessa de um ministério em seu futuro governo, mas morreu antes de tomar posse, causando uma onda de comoção em todo o país.
Vice eleito de Tancredo Neves, José Sarney (PMDB) assumiu a presidência, mantendo a promessa de ministério para o político baiano.
Waldir Pires se tornou ministro da Previdência Social no governo Sarney, se mantendo em evidência no debate político nacional. Sua atuação no ministério lhe credenciou a uma nova aventura na disputa pelo governo da Bahia.
Waldir Pires e a vitória histórica para o governo da Bahia
No ano seguinte, 1986, Waldir Pires deixou o Ministério da Previdência Social, que lhe deu a condição de principal líder de oposição ao grupo carlista.
Waldir foi alçado a candidato a governador da Bahia, liderando a chamada ‘Campanha da Mudança’, reunindo setores progressistas do estado em torno da sua candidatura.
Como vice, Waldir teve Nilo Coelho, antigo aliado do então ministro Antônio Carlos Magalhães (PFL). Sem a máquina na mão, mas tomado sob o clima de desejo de mudança nos rumos políticos, Waldir venceu o jurista Josaphat Marinho (PFL), candidato do carlismo à sucessão de João Durval, tendo recorde de votação até então, com 2.675.108 votos.
Sobre a campanha histórica, Waldir comentou anos depois, lembrando de forma nostálgica do episódio que rompeu com o domínio do grupo liderado por ACM.
“Minha candidatura ao governo do estado era absolutamente natural. Desincompatibilizei-me em fevereiro de 1986. Foi uma bela campanha, talvez a mais bonita da Bahia. Ganhei a eleição com 1,5 milhão de votos de frente”, destacou em entrevista.
Waldir renunciou ao governo em 1989, quando foi disputar a eleição presidencial na condição de vice de Ulysses Guimarães (PMDB). A dobradinha não fez sucesso nas urnas, passando distante de uma vitória.
O triunfo de Waldir na Câmara e derrota polêmica para o Senado
Waldir voltou à cena política em 1990, quando foi candidato à Câmara dos Deputados pelo PDT. Sem dificuldades, foi eleito como o nome mais votado entre os deputados federais baianos, com 147.689 votos.
Quatro anos depois, Waldir Pires foi candidato ao Senado pelo PSDB, sendo derrotado por uma diferença de cerca de 3 mil votos. Sua derrota, no entanto, foi contestada em seguida, sob suspeita de fraude nas urnas, na época em que os votos eram registrados em cédulas, mas sem sucesso.
Waldir deixou o PSDB rumo ao PT logo depois, se tornando um dos principais nomes do partido nos anos seguintes. Em 1998, o agora petista voltou à Câmara dos Deputados, após ensaiar uma candidatura ao governo do Estado.
Em 2002, tentou novamente o Senado, ficando mais uma vez perto da vitória, mas sem alcançar êxito.
Waldir Pires ministro e vereador de Salvador
Derrotado nas urnas, Waldir foi presença garantida na Esplanada dos Ministérios no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O petista foi ministro da Controladoria-Geral da União, deixando o cargo para ocupar entre o final do primeiro governo e o início do segundo mandato de Lula, já a partir de 2007, o Ministério da Defesa.
Durante sua passagem pelo Ministério da Defesa, Waldir enfrentou a crise do setor aéreo. Diante do cenário, o ministro deixou o cargo, permanecendo distante do debate político por um período sabático.
Waldir chegou a ensaiar uma candidatura ao Senado em 2010, mas a ideia não vingou. Na época, o PT preteriu seu nome para bancar o deputado federal Walter Pinheiro, primeiro senador petista eleito na Bahia.
Dois anos depois, em 2012, Waldir Pires encarou as urnas pela última vez, quando se candidatou a vereador de Salvador, sendo eleito com 13.801 votos, o nome mais votado do PT na capital baiana.
Waldir encerrou seu mandato em 2017, após rejeitar uma nova candidatura ao cargo nas eleições de 2016.
No dia 22 de junho de 2018, aos 91 anos, Waldir Pires morreu, deixando um dos maiores legados da história da política brasileira. No mesmo ano, o ex-governador teve sua biografia lançada, escrita pelo ex-deputado Emiliano José.
A obra foi dividida em dois volumes, trazendo detalhes da vida do político baiano e da sua atuação.
A coluna Política e Memória celebra os 100 anos de nascimento de Waldir, pilar importante da estrutura democrática, ainda que jovem, do Brasil.
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