Uma combinação de panes técnicas ocultadas, falhas humanas por sobrecarga de estímulos e uma negligência estrutural na manutenção provocou a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em 2024. As conclusões constam no relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), apresentado oficialmente na quinta-feira (23).
A apuração desmentiu as alegações iniciais da companhia de que o turboélice ATR 72-500 (prefixo PS-VPB) operava sem defeitos. O órgão apontou graves fragilidades nos procedimentos de oficina da empresa, incluindo relatos de mecânicos sobre a prática de transferir peças com defeito entre diferentes aviões da frota antes da liberação dos voos.
A perícia descobriu que o sistema de degelo da fuselagem já vinha falhando em viagens anteriores, mas os problemas eram sistematicamente omitidos dos diários de bordo por diferentes tripulações.
“Três tripulações diferentes realizando normalização de desvio [de procedimento]. Fizemos uma análise mais ampla e notamos que outras tripulações também faziam isso, o que demonstra uma cultura organizacional”, explicou o Investigador-Encarregado do Cenipa, Tenente-Coronel Fróes.
De acordo com o chefe do órgão, Brigadeiro do Ar Avellar, a investigação identificou 19 fatores contribuintes para o desastre.
Sinais ignorados na cabine da Voepass
Os dados extraídos mostram que, na rota entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP), o painel emitiu múltiplos alertas sobre a formação de gelo e avisou por oito vezes que a velocidade caía devido ao peso na estrutura. Houve falha no mecanismo de degelo e os pilotos optaram por desligá-lo, descumprindo o protocolo que exigia a descida imediata para altitudes mais quentes após uma segunda pane no sistema.
O relatório revelou ainda que a aeronave sequer deveria ter decolado naquele dia, pois uma pane nos limpadores de para-brisa restringia legalmente sua operação em condições de chuva ou previsão de precipitação.
Histórico comprometedor e fator humano
Ao mapear o histórico da Voepass, o Cenipa analisou 15 mil voos e descobriu que 1.674 registraram degradação de performance. Em um deles, houve perda de controle em voo, evento que a empresa omitiu das autoridades.
Áudios da cabine expõem o fator humano no desastre. Após uma hora de deslocamento, o copiloto comentou ter esquecido de acionar o degelo e, minutos antes do impacto, mencionou a presença de “bastante gelo”.
Na fase de aproximação do aeroporto, os pilotos gerenciavam os alarmes de velocidade e congelamento, preparavam a descida e dialogavam com o controle de tráfego aéreo. A demora na liberação para o pouso agravou o cenário.
“O cérebro não consegue gerenciar aquelas informações em excesso. Isso pode ter comprometido a reação deles aos alertas”, detalhou o Tenente-Coronel Fróes.
A resposta tardia impediu a recuperação da aeronave, que entrou em um estol seguido de parafuso chato até a colisão no solo.
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