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 Luiz Otávio Santos Nunez, de 19 anos, tornou-se o paciente mais jovem do país a receber a polilaminina e o primeiro em Mato Grosso do Sul a passar pelo procedimento. Em entrevista ao g1, ele contou que, apenas 12 dias após a aplicação da proteína no Hospital Militar de Campo Grande, já conseguiu perceber movimentos na ponta de um dos dedos da mão algo que, segundo ele, não acontecia antes do tratamento.

Militar do Exército Brasileiro, Luiz Otávio Santos Nunez ficou tetraplégico após um acidente com arma de fogo ocorrido em outubro do ano passado. Para conseguir acesso à polilaminina medicamento ainda em fase experimental  a família precisou recorrer à Justiça. A substância está em estudo clínico autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Pouco menos de duas semanas após a aplicação, realizada no dia 21 de janeiro de 2026, no Hospital Militar de Campo Grande, o jovem começou a perceber pequenos avanços. Ele relata que voltou a movimentar a ponta do dedo indicador, algo que não conseguia fazer antes. “É um movimento pequeno, mas é algo que eu não via. Eu não conseguia mexer a ponta do indicador como os outros dedos, e agora consigo”, contou.

A polilaminina é estudada há mais de 20 anos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se de uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína que atua no desenvolvimento embrionário e auxilia na conexão entre neurônios. Em casos de lesão medular, como o de Luiz Otávio, os sinais elétricos do cérebro deixam de chegar ao corpo porque as fibras nervosas são rompidas. A proposta do tratamento é estimular o crescimento dessas fibras e restabelecer parte da comunicação interrompida.

Além dos movimentos na mão, o jovem afirma ter começado a sentir reações nervosas nas pernas, que perderam totalmente a sensibilidade após o acidente. Ele destaca que a fisioterapia tem papel fundamental no processo de recuperação. “Eu me concentro para tentar mexer e percebo os nervos trabalhando”, disse.

A aplicação da proteína ocorreu 110 dias após a lesão período superior à chamada “janela terapêutica” prevista no protocolo da pesquisa, que indica até 72 horas após o trauma. Mesmo assim, o laboratório Cristália, parceiro da UFRJ na produção da substância, autorizou o procedimento de forma excepcional. Segundo a pesquisadora Tatiana Sampaio, responsável pelo estudo, ainda não é possível afirmar quais serão os efeitos em casos fora do prazo ideal, especialmente em lesões que já se tornaram crônicas.

O procedimento durou cerca de 40 minutos e foi realizado por uma equipe médica acompanhada por pesquisadores do Rio de Janeiro. A aplicação é feita diretamente na medula espinhal, por meio de injeção intramedular, já que a substância não pode ser administrada por via oral ou endovenosa devido aos riscos.

Os especialistas explicam que o tratamento é indicado para lesões traumáticas recentes, pois ainda há neurônios com capacidade de regeneração. Pacientes com lesões antigas, superiores a seis meses ou anos, não estão sendo incluídos nesta fase dos estudos.

A expectativa agora é que a pesquisa avance nas próximas etapas clínicas. Para que o medicamento possa ser disponibilizado amplamente, ainda será necessário concluir os testes de segurança, eficácia e solicitar o registro sanitário. Enquanto isso, Luiz Otávio e a família mantêm a esperança de que os pequenos movimentos sejam o início de uma recuperação maior — e de que a polilaminina possa, no futuro, beneficiar outras pessoas com lesão medular

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