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Manifestações políticas são tradição no 2 de Julho e servem como termômetro popular

 


Ex-senador ACM e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto em 2001 (Foto: Welton Araujo/Arquivo Correio) De 1821 a 1823, consolida-se na Bahia importantes mudanças de cunho político-sociais. Era o processo de Independência brasileira se formando em solo baiano. Essencialmente, o 2 de Julho marca os anseios de liberdade, consumados com a institucionalização da vitória das tropas nacionais sobre o “jugo português”. Espaço aberto de narrativas, desde então a data carrega as tensões e as disputas do período, sejam no campo político, social ou religioso.

O desfile cívico marca a celebração das forças populares, e também de manifestações políticas com presença de chefes de estado. Ao longo dos anos, o espaço passou a servir também de vitrine e termômetro de popularidade. Neste sábado (2) em que se comemora 199 anos da da Independência do Brasil na Bahia, ao menos 4 presidenciáveis para eleições de 2022 confirmaram participação na festa, assim como outros três candidatos a governador da Bahia.O cientista político e professor da Unilab, Cláudio André de Souza, explica que essas participações começaram em meados do século XIX. Os governantes passaram a participar de sessões solenes e a desfilar em carros emblemáticos do Caboclo e da Cabocla, levando em consideração a memória presente em torno da vitória dos baianos contra as tropas portuguesas.

“Desde a década de 1980 e mais fortemente a partir da década de 1990 que a política ganhou força no festejo da Independência. Vale lembrar que nesse período haviam lutas sociais em torno da redemocratização do país e um transbordamento societário muito forte em várias dimensões da vida nacional”, explica.

O historiador e professor Rafael Dantas destaca também que o espaço do 2 de Julho, como festividade e data histórica, serve como um palco. Deve ser interpretado sobre o ponto de vista híbrido, tanto como políticos encaram a festa, quanto populares a interpretam. Conversar, aparecer, mostrar o rosto é uma forma de legitimação.

O 2 de Julho como festividade é importante por ser sempre um palco físico e político. Toda data histórica, de relevância e importância é sempre um palco de disputas políticas e era assim tanto no século XIX como até hoje. Então, não seria diferente se candidatos estivessem disputando esse espaço, porque desde o primeiro momento da década de XX, os políticos e componentes do Exército já disputavam o local para exibição”, explica.

“Ali era um lugar de serviço, ainda mais naquele período onde não tinham tantos meios de divulgação. Então, você conversar, aparecer, mostrar seu rosto, num evento com forte participação popular, é um palco de legitimação e termômetro político”, destaca.

Construção histórica e disputa de narrativas

Mas nem sempre foi assim. O entendimento do espaço da festa cívica como local de evidência começou timidamente. Somente a partir do século XX, com destaque para meados do período, é que ocorreu uma mudança de pensamento e visão. A participação de políticos passou a ser mais incisiva, especialmente em anos eleitorais.

O historiador analisa que a influência da política para a festa depende do contexto do momento. O 2 de Julho, no início da época republicana, por exemplo, não tinha esse mesmo apelo do século XX. A presença de figuras públicas é uma aposta no “escuro”, em que ele acredita que sua participação é importante e um elo transformador para a festa.

“Ele nunca saberá dosar até que ponto o que ele fez é um acerto ou erro. E para a população, é mais um cenário de divulgação e destaque, que evidencia quem almeja estar no poder. Do ponto de vista da festividade, temos um aspecto que é a análise sócio-política e histórica, e não necessariamente festiva”, diz Rafael Dantas.

Ele destaca que ser visto não é somente estar em um lugar. É documentar a presença. Não basta somente participar, é preciso ter registros que comprovem isso e esse é também um dos propulsores para essa mudança no alcance das manifestações políticas. Há uma construção de narrativas e de imagem. Antes mesmo da época em que a fotografia não era tão acessível assim, as pessoas já manifestavam isso. Com o avanço das comunicações, a cadência também ganhou um novo ritmo.

“Isso é uma forma muito clara de narrativa política da história da Bahia e de uma construção estética ligada a imagem em que o político é, ou tenta ser, quase que um Caboclo moderno. Os personagens que ali participam se vestem de uma civilidade para o momento, de uma alma patriótica para mostrar sua força e intensão para com o povo”, afirma o historiador.

O mesmo aponta o cientista político Cláudio André de Souza. Segundo ele, pela visibilidade do festejo, trata-se de uma oportunidade para expor posições, ideias e narrativas.

“Em tempos de redes sociais, facilita ainda mais a visibilidade do momento. É uma forma de se comunicar para um público mais mobilizado, mas também uma projeção nacional”, analisa.

De acordo com o cientista, o 2 de Julho está cada vez mais inserido nesse contexto.

“Diferentemente do carnaval ou de outras festas como a Lavagem do Bonfim, a data trata de uma luta eminentemente social e política, logo, a principal mudança é a proliferação de grupos, coletivos e partidos que mergulham na festa para expor suas ideias e interesses”, disse.

“Na teoria dos movimentos sociais tem um fato importante trazido por um sociólogo norte-americano, o Charles Tilly, em estudos pioneiros desde a década de 1990: ações coletivas são essenciais para que a sociedade demande do Estado e das instituições. O 2 de Julho se transformou nesse espaço político de múltiplas vozes, e não deixa de ser um avanço para a nossa democracia em dimensão local e nacional”, afirma.

Pluralidade

Todas essas características são indicativos da pluralidade do 2 de Julho. De acordo com Rafael Dantas, esses são os usos e abusos da festividade, que, ao longo dos anos, foi interpretada e reinterpretada diversas vezes.  

“A festa ganhou a força que tem por uma questão especialmente do envolvimento popular. Se não tivesse envolvimento popular, não teríamos a festa viva até hoje. O 2 de Julho é a festa da Independência do Brasil na Bahia que é maior do que todas as outras. Isso só acontece porque o povo abraçou e entendeu aquilo como importante”, observa o professor.

Na rua, a participação popular e a presença de políticos se misturam, representando o caráter diverso da festa e também um “apontamento da sobrevivência ao longo do tempo”. 

“Para uma festa virar tradição, ela precisa adequar os seus costumes em cada contexto. Precisam ser hibridizados em cada período”, destaca Rafael Dantas.

Relembre políticos que já participaram da festa ao longo dos anos

Ex-governador César Borges, em 1998 (Foto: Agnaldo Novais/Agecom)
Antônio Imbassahy, Governador do Estado em 2 de Julho de 1994 (Foto: Mario Marques/Agecom)
Ex-governador Waldir Pires – de branco (Foto: Roque Quito/Arquivo Correio)
João Durval e ex-deputado Luís Eduardo Magalhães (Foto: Arquivo)
Paulo Souto em 1995 (Foto: Agnaldo Novais/Agecom)
Ex-senador ACM e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto em 2001 (Foto: Welton Araujo/Arquivo Correio)
Ex-governador e atual senador Jaques Wagner (Foto: Evandro Veiga/Arquivo Correio)
Rui Costa, ACM Neto e Ângelo Coronel em 2018 (Foto: Alan Oliveira/G1 Bahia)

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