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'Voz do milênio', Elza Soares brilhou apesar de Mané Garrincha

 

'Voz do milênio', Elza Soares brilhou apesar de Mané Garrincha
Foto: Reprodução / Instagram

O dia 20 de janeiro de 2022 ficará marcado para sempre como aquele que levou embora a “voz do milênio”. Morreu, aos 91 anos, de causas naturais, a cantora Elza Soares, um dos maiores nomes da música brasileira (lembre aqui). Coincidentemente, foi também em um 20 de janeiro – neste caso, de 1983 - que se foi Mané Garrincha, ícone do futebol mundial e campeão com a Seleção Brasileira em 1958 e em 1962, considerado pela própria Elza o amor de sua vida.

 

A sincronia nas datas gerou, especialmente nas redes sociais, uma onda de nostalgia, como a última tacada de um trágico romance. Elza chegou a ser classificada até como “protetora de Garrincha”, o homem que, segundo relatos da própria, a violentou durante o relacionamento de 16 anos que tiveram, entre 1966 e 1982.

 

Em 2015, a voz do milênio, eleita pela rádio britânica BBC em 1999, cantou: “Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180, vou entregar teu nome e explicar meu endereço. Aqui você não entra mais. Eu digo que não te conheço, e jogo água fervendo se você se aventurar”. A música “Maria da Vila Matilde” integrou o CD “A Mulher do Fim do Mundo”.

 

Em 2015, Elza gravou "Maria da Vila Matilde", que fala sobre violência doméstica | Foto: Divulgação

 

À época do relacionamento com Garrincha, não existia 180, Lei Maria da Penha ou qualquer outra coisa na qual Elza pudesse se amparar. Pelo contrário. De acordo com a historiadora e mestrando em História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maria Eduarda Magro, o contexto conservador da sociedade da época – o Brasil viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985 - fez com que as memórias negativas do relacionamento fossem colocadas em segundo plano.

 

“São ainda recentes os debates que se preocupam com relacionamentos abusivos e em combater a violência física e psicológica. Historicamente, o matrimônio se constituiu como espaço inviolável e privado, em uma relação de dominância exercida pelos homens e de passividade esperada das mulheres. Essa dinâmica contribuiu para o entendimento de que o que acontece entre um casal deve ser por ele resolvido, numa relação em que ninguém ‘pode meter a colher’, devendo relevar qualquer excesso, que é entendido como parte normal de uma relação. Esses são alguns fatores que colaboram para a romantização de relacionamentos que foram fundamentalmente violentos e abusivos, como é o caso da união de Elza e Garrincha”, afirmou, em entrevista ao Bahia Notícias.

 

O RELACIONAMENTO

O capítulo 7 do livro “Pra frente, Brasil!”, de autoria do pós-doutor em História pela Universidade de São Paulo Denaldo Alchorne de Souza, traz as nuances da relação entre Elza e Garrincha. O atacante era casado com Nair Marques, com quem teve oito filhos, mas sempre teve fama de mulherengo.

 

Foi Elza, porém, quem levou a fama de atrapalhar a carreira do ídolo e destruir seu lar, após o romance entre os dois tornar-se um namoro, em 1963. À época, Garrincha ainda era casado, e estava tendo problemas com o Botafogo. No início daquele ano, o craque tinha sido acusado por dirigentes de falta de profissionalismo quando, pela segunda vez em uma semana, abandonou a concentração.

 

“Garrincha sofria de artrose, que consiste no irreversível apodrecimento dos tecidos ósseos. A morfologia de suas pernas tortas agravava ainda mais a situação do joelho direito, já que o seu peso era sustentado por ele”, diz um trecho do capítulo, intitulado “Estrela Solitária”.

 

Os problemas com o Botafogo, que incluíram pedido de aumento salarial, foram sendo associados a Elza de forma constante, especialmente por dirigentes do clube e repórteres da época. Havia o entendimento de que a cantora estava influenciando nas decisões controversas do jogador.

 

Elza e Garrincha tiveram relacionamento conturbado | Foto: Reprodução / Instagram

 

Ainda em 1963, Elza cantou “Eu sou a outra”, do álbum “Um Show de Elza”. A música dizia: “Quem me condena, como se condena uma mulher perdida, só me vê na vida dele, mas não vê na minha vida. Não tenho nome, e trago o coração ferido, mas tenho muito mais classe do que quem não soube prender o marido”.

 

As críticas após o lançamento dessa canção se intensificaram. Elza e Garrincha foram morar juntos em 1966, e tornaram o relacionamento público para a imprensa. A situação foi tão assustadora que a artista foi impedida de fazer um show na Mangueira, no centro do Rio de Janeiro, e teve de sair disfarçada do local.

 

“No período da ditadura civil-militar brasileira, marcado por um grande conservadorismo nos costumes e na moral, ainda que as mulheres desviantes se tornassem alvos de ataques, esses ataques tinham faces diferentes: mulheres brancas e as mulheres negras eram atingidas de diferentes formas, o que também era influenciado por suas posições sociais. Em uma sociedade pautada na centralidade da família (branca, heterossexual, monogâmica), Elza não era atacada somente pelo envolvimento em adultério – o que já era condenável para as mulheres que subvertiam a lógica de esposa-mãe-dona-de-casa. Elza era atacada também pelo viés da sexualização, que historicamente identificou os corpos de mulheres negras como lugares de animalização e promiscuidade”, destaca Maria Eduarda.

 

O casal teve um filho, Garrinchinha, em 1977. No entanto, devido a agressões físicas, ciúmes do atleta, traições e humilhações, o divórcio veio em 1982. Garrincha morreu no ano seguinte, de cirrose hepática. Já Garrinchinha veio a óbito em 1986, quando tinha apenas nove anos, em um acidente de carro. Ele e alguns amigos voltavam de Magé para o Rio após terem visitado a família de Garrincha, mas o carro derrapou na estrada e caiu de uma ponte em um rio. O menino foi arremessado para fora e levado pelas águas. Seu corpo só seria encontrado na manhã seguinte.

 

Foi um dos quatro filhos que Elza perdeu, entre os oito que teve, durante sua vida. Dois deles morreram por subnutrição. O último, Gilson, faleceu em 2015, por causa de uma infecção urinária.

 

Apesar de tudo, Elza brilhou. Apesar do pai, que também agrediu a mãe. Apesar do primeiro marido, com quem se casou aos 13 anos, por obrigação. Apesar de ter sido subestimada, por sua origem humilde, como retrata em “Planeta Fome”. Apesar da depressão e da perda dos filhos. Apesar de Mané.

 

O dia 20 de janeiro ficará marcado para sempre como aquele que levou embora a “voz do milênio”.

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