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No Dia do Idoso, baianos mostram como o trabalho sustenta a vontade de viver

Nem sempre ser idoso significa ficar fora da população economicamente ativa. Dos 2,3 milhões de idosos existentes na Bahia, 422 mil trabalham e 35 mil estão em busca de ocupação. É o que revela o estudo desenvolvido pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), ao qual a reportagem do MASSA! teve acesso em primeira mão.
Intitulado “Perfil dos Idosos da Bahia”, esse estudo é desenvolvido em parceria entre a SEI, que faz parte da Secretaria de Planejamento (Seplan), e da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SJDHDS). Perfil dos Idosos da Bahia é um estudo que envolve os temas demografia, saúde, segurança, trabalho e rendimento e condições de moradia. A estimativa é que o relatório completo seja divulgado até o final deste ano. 
O estudo da SEI revela, ainda, que 50,7% dos idosos com ocupação (232 mil idosos) atuam por conta própria. Ou seja, são trabalhadores informais. Além disso, o percentual de idosos aposentados que ainda trabalham gira em torno de 24%.
“Dados da Previdência Social indicam que prevalece na Bahia, de uma maneira geral, as pessoas aposentadas cujo benefício é até um piso previdenciário. Então, isso justifica até a manutenção dessas pessoas no mercado de trabalho. Eles estão aposentados, mas o valor que recebem não é suficiente”, afirma Luci Nascimento, economista que participa do estudo Perfil dos Idosos da Bahia. 
É o caso de Antônio Domingos dos Santos, 83 anos, que se aposentou há 27 anos, mas não deixou de trabalhar como camelô na Baixa dos Sapateiros, onde atua há 49 anos. Ele revela que continua trabalhando porque o salário mínimo que recebe de aposentadoria é insuficiente para cobrir todas as suas despesas mensais.
“A aposentadoria não dá para nada. Não dá para pagar água, luz. Não dá para nada”, afirma ele, ressaltando, ainda, que a atividade como camelô também não tem dado lucro. “Eu não larguei aqui porque não tem outra coisa para fazer. Se tivesse, já tinha largado isso aqui. Não está tendo futuro mais não. Hoje ainda não vendi uma peça. Se achasse um serviço para ganhar dinheiro, eu ia. Qualquer serviço que eu pudesse fazer, de limpeza, de segurança”, completa o aposentado, cheio de disposição para trabalhar.
De segunda a sábado, seu Antônio sai do bairro de Castelo Branco, onde mora com os dois filhos, para trabalhar no Camelódromo da Baixa dos Sapateiros. Durante os seis dias da semana, o idoso trabalha das 8h às 16h. Enquanto aguarda os clientes interessados em suas sacolas, bolsas e mochilas, ele divide o tempo entre cochilos na cadeira, pequenos passeios em torno da barraca e conversas com os colegas.
2,3 milhões
Ativos - Esse é o número de idosos existentes na capital baiana. Dentre eles, 422 mil trabalham e 35 mil estão em 
busca de ocupação

Completar a renda é também o motivo pelo qual seu José Alves dos Santos, 85 anos, continua trabalhando, apesar de estar aposentado desde 2004. Assim como seu Antônio, ele recebe um salário-mínimo de aposentadoria. “Não dá para ficar sem trabalhar. Eu tenho meus netos, meus filhos que, às vezes, passam por um aperto e eu ajudo”, afirma o camelô, que trabalha na Baixa dos Sapateiros desde 1972. 
Seu José também reclama das poucas vendas no Camelódromo da Baixa dos Sapateiro. “Tem muita diferença das vendas antigamente para hoje. Ganhei muito dinheiro aqui. Houve uma época em que eu e minha primeira esposa tivemos três barracas. Eu já ganhei dinheiro aqui e é por isso que hoje eu tenho meu prediozinho para meus 10 filhos morarem”, afirma José. Ele mora, no bairro do Uruguai e trabalha de segunda a sábado, das 8h30 às 16h. 
Seu José, 85, trabalha para poder ajudar netos e filhos, sempre que necessário
Seu José, 85, trabalha para poder ajudar netos e filhos, sempre que necessário
O coordenador de pesquisas sociais da SEI, Guillermo Etkin, ressalta que a redução de reajuste do salário-mínimo está entre as questões pelas quais os idosos continuam trabalhando, mesmo após se aposentarem. “A expectativa agora é que talvez seja até abaixo da inflação ou não tenha reajuste. Então, a redução do poder de compra da população de 60 anos ou mais é um fator que empurra para o mercado de trabalho. Não só o próprio idoso, como seus familiares. Se o idoso não estava trabalhando, ele vai procurar uma ocupação devido à redução dessa massa salarial dentro da família, o que faz com que, para arcar com as necessidades, ele tem que buscar um complemento de renda”, avalia Etkin, que coordena o estudo Perfil dos Idosos da Bahia.
Guillermo Etkin ressalta que a grande maioria dos benefícios pagos na Bahia são de até um salário-mínimo. De acordo com o coordenador, dados da Previdência Social do ano de 2018 indicam que, em todo o estado, são pagos 2,5 milhões de benefícios. “Setenta por cento desse número de 2,5 milhões de benefícios pagos aos baianos são até um salário-mínimo”, completa o coordenador Etkin.
Mulher cheia de garra: sustento e amor
Dona Zezilda Floriano dos Santos, 83 anos, é a comerciante mais antiga do Camelódromo da Baixa dos Sapateiros. Trabalha no local há exatos 50 anos. Assim como seu Antônio e seu José, ela  é aposentada e recebe um salário mínimo. A idosa compartilha da mesma opinião dos colegas sobre o valor da aposentadoria não dar para muita coisa, mas revela que continua trabalhando mesmo por amor ao trabalho como camelô. “Eu amo trabalhar. Amo meu trabalho”, afirma a idosa, toda sorridente e cheia de orgulho. 
Dona Zezilda fixou raízes na capital e inspirou filhos no ofício de camelô
Dona Zezilda fixou raízes na capital e inspirou filhos no ofício de camelô
Dona Zezilda é natural da cidade de Jiquiriçá, no interior do estado, e tinha 29 anos quando veio para Salvador trabalhar em casa de família. Infeliz por estar na casa dos outros e por não ter os quatros filhos por perto, ela enxergou no comércio informal da Baixa dos Sapateiros a oportunidade de mudar de vida. Como sabia costurar desde criança, dona Zezilda passou a comprar tecidos e confeccionar roupas para vender na Baixa dos Sapateiros. “Costurava de noite e vendia de dia”. Aos poucos foi trazendo os filhos para morar com ela. Dois deles tomaram gosto e são camelôs no Camelódromo da Baixa dos Sapateiros.
São maioria: não contribuintes
Guillermo Etkin diz que o estudo desenvolvido pela SEI analisou também, dentro da população ocupada, quantos são contribuintes ou não contribuintes, uma vez que o idoso, mesmo aposentado, pode continuar a contribuir com a previdência. “A maior parte dos idosos que estão na informalidade não contribui. Então, para este emprego, eles estariam descobertos. Além de estarem informais, não são contribuintes. São quase 95% desses idosos que estão na informalidade e não contribuem”, explica o coordenador do estudo da SEI. De acordo com Etkin, essa informalidade se manteve, mais ou menos, estável entre 2016 e 2019. “A informalidade se caracteriza quando a gente não tem carteira assinada ou algum outro tipo de vínculo ou algum contrato de trabalho que seja regido pela norma trabalhista. Então, em geral, o camelô, ele é informal”, afirma. “A contribuição à previdência não significa a formalização do emprego”, completa Guillermo Etkin.
Guillermo Etkin explica que maioria dos idosos atua no mercado informal
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