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Quando o sapato aperta, Bolsonaro adere à 'velha política' - mesmo que negue

Quando o sapato aperta, Bolsonaro adere à 'velha política' - mesmo que negue
Foto: Divulgação
Cada um sabe onde o próprio sapato aperta. Essa é uma máxima popular que pode ser aplicada em vários contextos. Durante a semana decisiva para aprovação da reforma da Previdência, o dito popular cai como uma luva no processo de transformação da “nova política” na forma mais regular de barganhar votos no Congresso Nacional: a liberação de emendas e negociação de cargos de segundo e terceiro escalão. Há algo de errado nisso? Não. Porém é importante lembrar que há o conflito entre o discurso e a prática do governo federal.

As cartas nessa mesa de barganha é o “toma lá, dá cá” oficial em Brasília. O presidente Jair Bolsonaro, na sua tese de que é preciso exorcizar as relações promíscuas entre o Executivo e o Legislativo, pode até seguir com a retórica de que não faz “negociatas” com a Câmara dos Deputados. Agora, na iminência da votação mais importante para o primeiro ano de governo, foi preciso deixar de lado esse discurso e partir para a prática. O resultado foi a liberação em massa das emendas para aliados e o indício de que indicações políticas podem acontecer, tudo como sempre aconteceu na capital do Brasil.

Quem primeiro falou sobre essa concessão foi o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Ex-deputado federal por dois mandatos, ele conhece o funcionamento dos bastidores do Congresso e, diferente do presidente, nunca endossou o coro contra “a velha política”. Segundo Mandetta, o governo autorizou a liberação de quase R$ 1 bilhão em emendas em um esforço “pró-Previdência”. Foi a chave para que percebêssemos que Bolsonaro e sua trupe finalmente se rendeu às regras do jogo, ainda que insistam que não.

Talvez segurar até esse momento para liberar emendas e os cargos de escalões inferiores tenha sido estratégico. A reforma da Previdência é a pauta primordial para a governabilidade do país e, em uma perspectiva repleta de adversidades, ceder às vésperas da votação da matéria era uma carta na manga do Planalto. Rodrigo Maia, que é efetivamente o pai da apreciação do texto, conseguiu atingir um nível de consenso que, até então, o governo não parecia atingir em um horizonte de curto prazo.

Logicamente, é certo que a reforma não vai passar exatamente do jeito planejado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Entre idas e vindas, no entanto, é provável que a reforma seja muito mais próxima da ideia inicial do superministro do que esperaríamos. A desidratação, típica em projetos como esse, foi menor e acabou compensada por malabarismos do relator na comissão especial, Samuel Moreira (PSDB-SP).

Caso passe pela Câmara dos Deputados em dois turnos, os olhos da articulação se voltam para o Senado, onde o projeto deve ser cozinhado por mais algumas semanas – ou até alguns poucos meses. Porém, aprovado pelas duas Casas, tem tudo para ser um bom trunfo de Bolsonaro frente ao mercado e a uma parcela expressiva da população. Quer a oposição faça barulho ou não, o presidente caminha para ficar maior do que esteve durante todo o processo.

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