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'Quero transformar minha comunidade', diz Damina Sá, jovem poeta nascida no Calabar

'Quero transformar minha comunidade', diz Damina Sá, jovem poeta nascida no Calabar
  Era o último dia da programação de Carnaval no Largo do Pelourinho quando Damiana Sá interrompeu o encerramento do show das Aya Bass - Larissa Luz, Xênia França e Luedji Luna -, e cantou um rap, mostrando sua arte a plenos pulmões. “Quando subi naquele palco eu não tinha nem noção de quem estava ali. Na verdade foi a primeira vez que vi Larissa Luz. Eu já conhecia Luedji Luna, mas Larissa foi a primeira vez que eu vi”, conta a jovem de 20 anos, nascida na comunidade do Calabar e hoje residente em Campinas de Pirajá, junto com a mãe e o irmão. “Subi e já fui roubando o microfone, praticamente. E aí eu me expressei da forma que era tudo que eu queria, independente das minas. Elas têm o trabalho delas, eu valorizo, mas também valorizo muito o meu. Eu sei que eu sou boa, que meu trabalho é bom, e eu quero que as pessoas me observem e vejam que a favela pode ser transformada também. Que o mundo pode ser transformado”, diz Damiana, que hoje trabalha vendendo suas poesias e canções em ônibus de Salvador, além de bares e no Ferry Boat.


  O emocionante e inesperado encontro pode ter rendido bons frutos para a jovem, que canta desde criança e sonha em viver plenamente de sua arte. “Larissa entrou em contato comigo. Ela me pediu uma música, a música que eu cantei, que fala dos orixás. Ela me convidou pra participar do disco dela e tal. Até agora ela não me respondeu, mas o tempo que sabe, os orixás que sabem. O que tem de ser vai ser, e eu não perco a minha esperança”, revela Damiana. 

  Mirando um horizonte de possibilidades futuras, a garota, no entanto, não esqueceu sua origem e o caminho tortuoso pelo qual percorreu. “Quando eu completei 15 anos tive a transformação. Eu era uma pessoa banda voou, de rua, pá. Andei muito na rua em minha vida. Nunca morei na rua, mas já andei muito na rua e me envolvi com certas pessoas”, conta a garota, que aos 14 anos havia deixado a escola, e este ano tenta se matricular na 8ª série. A mudança aconteceu do encontro com Rebeca Teles, uma estudante de Letras. “Ela me ajudou de uma forma... Foi muito louco, porque ela não me falou ou mostrou em um dia. O conhecimento ela me trouxe com músicas, me mostrou várias coisas, Caetano Veloso, Gilberto Gil... Tem uma que ela gosta muito, que era João Bosco. E ela gostava muito dessas músicas de MPB, e aí me mostrava tudo que ela conhecia”, lembra. “Ela falava também sobre as aulas dela, me ensinou gramática tradicional, universal, tudo que ela tinha ela levava pra mim, me explicava as coisas. E foi dessa forma que eu fui me descobrindo. Quando eu vi eu já estava escrevendo”, conta a jovem poeta. 
  A primeira composição de Damiana remonta um dos episódios mais tristes de sua vida, a morte do tio, Dimas Sá. “Quando eu tinha 13 anos ele morreu. Ele começou a usar crack, andava ali na Gamboa, e chegou um momento, quando eu tinha 13 anos, que mataram ele. Foi louco, e aí foi também que eu fiquei desbandeirada, muito confusa na minha cabeça, triste. Eu fiquei na rua mais ainda, eu dei uma sumida, tanto que minha mãe ainda me procurou no Juizado de Menores. Na verdade eu estava em uma casa, trancada, depressiva”, relembra Damiana. “Fui e escrevi uma música em homenagem a ele, contando um pouco da história, até a decadência, dele morrer. E aí eu comecei a escrever e sigo até hoje”, diz a jovem, atribuindo à amiga a responsabilidade por ter lhe despertado. “Ela foi tirando as grades dos meus olhos, me mostrando que o mundo não é só isso, malandragem, viver na rua e tal. Hoje eu consigo ter consciência racional de todo tempo que eu perdi”, explica.


Com "Favela", Damiana participou do livro “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana”

  Hoje, com a noção do próprio potencial, Damiana Sá aposta em seu sonho. “O importante é a gente ir atrás, acreditar. Não é fácil, o trabalho no ônibus mexe com energia, com a sua energia e a do público. Então, você precisa ter uma boa energia, porque senão você não consegue transformar as pessoas, se transformar. A gente consegue aos pouquinhos”, explica a jovem, que foi selecionada para participar do livro “Poéticas periféricas: novas vozes da poesia soteropolitana”, obra com textos de poetas e poetisas da periferia de Salvador. “Fui contemplada pra sair no livro, com uma poesia. E é muito gratificante pra mim, que passei tudo isso, e hoje sou feliz com o que eu faço, de verdade. Eu adoro fazer poesia”, diz Damiana, que agora pretende retomar os estudos, por considerar fundamental para sua arte. “Meu sonho mesmo é isso, a poesia, a escrita. Quero transformar minha comunidade, porque nem todo conhecimento realmente chega na favela. A gente vive em um ambiente muito fechado, muito alienado. Então você é submissa àquilo. Têm muitas pessoas que não têm tanta oportunidade. Quero mudar tudo, quero levar felicidade pra minha família, esse é o meu sonho, e cantar meu rap, porque eu também sou rapper, eu escrevo, sou compositora”, diz a jovem.

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