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Guarda levanta 'arma' contra professores e prefeitura perde controle de narrativa

Guarda levanta 'arma' contra professores e prefeitura perde controle de narrativaA prefeitura de Salvador quase conseguiu colar na greve dos professores a imagem de que a paralisação é partidarizada e teria fins meramente políticos. Tudo ia bem, especialmente pelo contexto de que a categoria é dirigida há muito tempo por setores ligados ao PCdoB e, enquanto faz barulho quando a pauta é soteropolitana, se cala quando o assunto são as reivindicações na esfera estadual. Porém, na última terça-feira (7), a Guarda Municipal jogou por terra as chances de empatia da opinião pública ao entrar em confronto com profissionais da educação da capital baiana.

Para quem não acompanhou: uma parcela de professores protestava à frente da sede da Secretaria Municipal de Educação, na Avenida Garibaldi, e teria entrado em confronto com agentes da Guarda Municipal – supostamente sem as devidas identificações nas fardas. Em meio à confusão e ao uso de bombas de efeito moral, um dos guardas levantou e apontou a arma contra representantes do movimento paredista. Foi a senha necessária para desautorizar a prefeitura a tratar a greve como um movimento unicamente político. Foi a Guarda que transformou em um caso de polícia.

No entanto, a gestão esperou um dia para se manifestar sobre o caso, depois de tratar a situação como agressão aos agentes públicos – vejam só, eram servidores contra servidores, mas pouco importou no momento em que os guardas municipais se tornaram “vítimas” dos professores. Ontem, quando a repercussão negativa ainda insistia em aparecer nos principais veículos de comunicação, o prefeito ACM Neto determinou a apuração da ação da Guarda Municipal no confronto.

Por mais que fosse inviável tomar partido de qualquer um dos lados, apurar o que aconteceu nas imagens assombrosas replicadas nas redes sociais era a primeira medida a ser anunciada pela prefeitura. Faltou alguém para avisar que uma crise se aproximava e que, num duelo entre professores e pessoas armadas, a opinião pública dificilmente tomaria partido daqueles que empunhavam armas – mesmo que com balas de borracha. O Palácio Thomé de Souza demorou a falar em apuração do caso e perdeu o controle narrativo da greve.

Em meio a esse debate, inclusive, há outro ponto a se discutir. Greves são instrumentos políticos de categorias profissionais e a estabilidade do serviço público acaba por permitir um maior conforto para que as paralisações se estendam por mais tempo – os professores deflagraram o movimento paredista há quase um mês. A partidarização delas, por mais que seja problemática, também é algo natural. Infelizmente. Afinal, as agremiações que se apresentam como partidos no Brasil usam e abusam das categorias para obter ganhos políticos – seja o PCdoB no controle da APLB e do Sindseps ou do DEM, que assumiu recentemente o comando do Sindimed na Bahia. Minimizar as mobilizações por conta dessa influência política é, no mínimo, tentar ludibriar a opinião pública.

Sem entrar no mérito das reivindicações, a episódio da última terça pode ter sido o marco para que a prefeitura seja obrigada a se reposicionar em relação ao movimento paredista. E, por mais que os servidores estejam silentes quanto à ausência de negociações salariais no âmbito estadual, usar a guerra política entre os grupos políticos de José Ronaldo (DEM) e Rui Costa (PT) é reducionista demais.

Mesmo que não queira, a imagem do guarda civil de Salvador apontando uma arma contra os professores é bem simbólica sobre o que vivemos no Brasil. Um país onde professores possuem poucos direitos e que vivem eternamente sobre a mira de um estado injusto.

Este texto integra o comentário desta quinta-feira (9) para a RBN Digital, veiculado às 7h e às 12h30, e para as rádios Excelsior, Irecê Líder FM e Clube FM.

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