Maia quer ser presidente? Da resposta a tal pergunta dependerá o resultado da votação na Câmara sobre a denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer, marcada para o início de agosto.

A vitória do parecer favorável a Temer ontem na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por 41 votos a 24, deixou uma certeza e uma dúvida. A certeza é que a única forma de Temer ser derrotado em plenário é o acirramento do clima de disputa com Maia. A dúvida é se Maia quer entrar nessa briga.

Com exceção da oposição e de alguns dissidentes do PSDB, os deputados votaram em peso a favor de Temer. Basta ele manter apoio da base para soterrar a denúncia do  procurador-geral Rodrigo Janot, baseada na delação da JBS, que vincula Temer à mala com R$ 500 mil, recebida pelo ex-deputado Rodrigo Loures numa operação controlada da Polícia Federal (PF).

Temer usou a maior de suas competências para conquistar a vitória na CCJ: uma inigualável capacidade de manobrar nos bastidores. Governistas promoveram nada menos que 25 trocas de deputados na comissão para garantir a maioria favorável a Temer. Foi a segunda maior marca dos últimos 20 anos – atrás apenas da aprovação da reforma da Previdência ano passado, também manobrada por Temer.

Cargos ocupados pelos dissidentes do PSDB foram oferecidos ou prometidos a deputados da base aliada. Entre eles, é provável que entrem um ou mais dos quatro ministérios hoje em mãos do partido (o Ministério das Cidades é candidato natural). Até mesmo uma Medida Provisória revendo pontos na recém-aprovada reforma trabalhista está em gestação para tentar atrair o voto de deputados ligados a sindicatos.

E Maia? Maia nem de longe tem a mesma experiência e traquejo de Temer para esse tipo de manobra. Por isso mesmo tem demonstrado certa hesitação em assumir o protagonismo das articulações pela aceitação da denúncia e consequente queda de Temer – situação que lhe beneficiaria com a Presidência da República e, provavelmente, lhe manteria no cargo nas eleições indiretas ele mesmo teriam de convocar em seguida.

Embora seja palpável a tensão entre Temer e Maia, este faz como o personagem do onipresente hit portorriquenho que tem infernizado nossos ouvidos nos últimos tempos: vai “despacito”, devagarinho, como a deixar um espaço de manobra que lhe permita recuar no caso da vitória de Temer também no plenário.

De que esse é o cenário mais provável, nunca houve dúvida. Só com os deputados de partidos que lhe foram 100% fieis na CCJ – PP, PR, PSD e PRB –, Temer soma 208 votos, bem mais que os 172 necessários para rejeitar a denúncia. Apenas duas questões podem alterar o quadro hoje favorável a ele.

A primeira é o quorom. Para a denúncia ser votada, é preciso que 342 deputados estejam em plenário. Nos levantamentos que vêm sendo publicados, a maioria tem evitado responder ou se declarado indecisa. De acordo com o jornal O Globo, há hoje 186 votos a favor e 85 contra a denúncia. Os demais 241 deputados evitaram responder ou estão indecisos. Caso 172 não compareçam à sessão, não haverá votação. É mais fácil para Maia, portanto, manobrar para evitar o quorum em plenário do que para reunir os 342 votos necessários à aprovação.

A segunda questão que pode atrapalhar os planos de Temer é a de sempre: fatos novos gerados pelos rotores da Operação Lava Jato em seu giro frenético. As delações do doleiro Lúcio Funaro e do ex-deputado Eduardo Cunha parecem caminhar num passo bem distinto do “despacito” de Rodrigo Maia. Dificilmente a PGR deixará de aproveitar qualquer nova revelação. Novas bombas poderão obrigar deputados hoje leais a Temer a rever seu voto.

Para Maia, contudo, a situação é ambígua. Não se sabe quanto as denúncias poderão atingi-lo também. Ele já foi citado em delações como destinatário de dinheiro ilegal para campanhas – e nega as acusações. Tudo o que quer evitar é estar no centro dos holofotes, para que elas naturalmente voltem a ser investigadas. Não é difícil entender por que sua dança pela derrubada de Temer segue devagarinho.